
Uma reportagem da TV Globo exibida nos anos 1990 voltou à tona nesta semana após ser compartilhada em redes sociais. O conteúdo, que trazia termos como “gente feia”, “cara de bolacha” e abordagens pejorativas sobre aparência física, foi resgatado por internautas e rapidamente viralizou, gerando críticas, memes e reflexões.
No material, o então repórter César Tralli aborda pessoas em um shopping center com perguntas provocativas: “Você acha que essa pessoa aqui teria chance em um comercial de TV?”. As respostas, muitas vezes carregadas de preconceito, foram ao ar sem filtros. Em tom de ironia, o jornalista apresentava uma mulher como alguém “fora dos padrões” que teria conseguido transformar sua aparência em fonte de renda — fundando uma agência que contratava apenas pessoas que não se encaixavam nos padrões convencionais de beleza.
A protagonista da matéria era Shahar Boyayan, empresária que viu na exclusão do mercado uma oportunidade: abrir espaço para quem nunca foi representado. Apesar do tom sensacionalista do vídeo original, Shahar afirma que a visibilidade trouxe resultados positivos: sua agência ganhou notoriedade e passou a receber centenas de cadastros de pessoas que também se sentiam invisibilizadas.
Anos depois, a mesma matéria se torna objeto de debate por motivos distintos. Enquanto na época foi exibida como curiosidade com viés cômico, hoje é apontada como exemplo de abordagem gordofóbica, discriminatória e desconectada da ética jornalística.
Atualmente morando fora do Brasil, Shahar já declarou em entrevistas recentes que, na época, não se sentiu ofendida. No entanto, reconhece que, à luz do debate atual, a forma como sua história foi contada seria “impensável” na televisão de hoje. “A maneira como colocaram minha imagem seria inaceitável. Mas, ao mesmo tempo, aquilo mudou a minha vida profissional”, afirmou em entrevista ao Diário de Cuiabá.
A repercussão nas redes tem sido marcada por indignação e sarcasmo. Muitos usuários se chocaram com o tom abertamente ofensivo da reportagem, enquanto outros usaram o episódio para refletir sobre como a televisão dos anos 1990 naturalizava comportamentos que hoje seriam amplamente condenados.
A matéria resgatada serve como retrato de uma época em que o humor e o sensacionalismo muitas vezes ultrapassavam limites éticos. Também evidencia como histórias de superação, mesmo diante do escárnio público, podem surgir. Ainda assim, a forma como essas narrativas são contadas importa — e muito.
Fonte:www.glp4.com