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É no chuveiro que as ideias surgem – 06/12/2025 – Antonio Prata


É no chuveiro que as ideias surgem, como sabem todos os habitantes da terra —menos os franceses, que não costumam frequentar amiúde esta região de seus lares. (Meu amigo Paul Cabannes que me desculpe. Não é o seu caso. Ele, um parisileiro, já foi totalmente aculturado, toma dois banhos por dia e até usa —dizem— desodorante). Cortázar, que morava em Paris, mas, como argentino, tomava banhos, escreveu uma crônica tratando do assunto —não da relação dos franceses com o banho, mas a do banho com as ideias. Segundo ele, estava ensaboando-se quando surgiu em sua cabeça a seguinte frase, ou melhor, a seguinte ordem. “Shut up your distasteful Adberkunkus!”.

Cortázar ficou surpreso, pois não tinha a mais vaga ideia do que fosse um Adberkunkus, de por que ele seria intragável ou o que tivesse dito para ser repreendido com tamanha veemência —e em inglês. O escritor seguiu ensaboando-se, na esperança de que aquele monólogo interior continuasse, quem sabe até se transformasse num diálogo, de modo que as perguntas anteriores fossem respondidas, mas nada. “Cala a boca seu intragável Adberkunkus!” foi tudo que seu inconsciente mandou durante aquela chuveirada, no melhor estilo “posto y me voy”.

Hoje de manhã, durante o banho, vivi uma situação parecida. Olhando o sabonete desmilinguido no laguinho da saboneteira, esqueci do sabonete e fiquei pensando em “desmilinguido”. “Desmilinguido”, repeti, em silêncio, umas três vezes, até que ocorresse a pergunta: só “desmilingue” algo que antes houver “milinguido”, certo? O verbo “milinguir”, curiosamente, não existe em nossa língua. Qual seria seu significado? Fulano estava com sono e muita preguiça, mas foi à academia, tomou um banho gelado e, quando se deu conta, estava super “milinguido”. “Milinguidaço”!

“Destrambelhar” sofreria do mesmo mal? Uma negativa sem afirmação? Uma espécie de “a volta dos que não foram” ou, numa visão cristã, algo como “os últimos serão os primeiros”? Não. Ao sair do banho descubro num dicionário que a palavra vem de “trambelho”, uma peça cilíndrica de madeira com uma pequena ranhura em torno, por onde passam fios ou cordas. O termo é mais usado na navegação. “Destrambelhada” é a corda ou fio que saiu do trambelho, perdeu o prumo, bagunçou-se.

A corda ou pessoa “destrambelhada”, atentem, é bem diferente da “desmilinguida”. A “desmilinguida” está prostrada no chão, puída, lânguida. Já vi muitas mangueiras de jardim “desmilinguidas” em fundos de quintal. Abra a torneira, porém, e ela vai começar a girar para todos os lados, toda “destrambelhada”. No “destrambelho” cabe o vigor, a energia dos loucos, dos hidrófobos, dos cronópios, do Saci. O “desmilinguido” é um melancólico, como na clássica gravura do alemão Albrecht Dürer.

Passo o resto da noite pensando no mistério do “Adberkunkus”. Quem seria ele? O que teria feito para que a voz o chamasse de intragável ou o mandasse calar a boca? Jamais saberemos, a não ser que surjam textos inéditos do Cortázar continuando a história. A única certeza que tenho é que, se tiver que chutar se o tal “Adberkunkus” é “desmilinguido” ou “destrambelhado”, aposto todas as minhas fichas na segunda opção. Um “Adberkunkus” prostrado, deprimido, ouvindo “Everybody Hurts”, do R.E.M: por que Cortázar gritaria? Agora pense num monstro cheio de energia e nenhum controle, uma espécie de Alf, o ETeimoso, uma mistura de Homer Simpson com o pai da Peppa Pig: personagens destrambelhados, causando no escritório do escritor, dançando balalaica, derrubando livros das estantes e impedindo-o de trabalhar. Aí sim, faria todo o sentido: “Cala a boca, seu intragável Adberkunkus!”.


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Fonte:UOL

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