Empresas ligadas ao empresário Nelson Tanure, alvo da Polícia Federal na segunda fase da Operação Compliance Zero, tiveram um dia misto na Bolsa de Valores nesta quarta-feira (14).
Por um lado, Gafisa e Alliança marcaram perdas de 0,88% e 5,62%, respectivamente. Por outro, Light e Prio avançaram 2,89% e 2,97%. Já o Ibovespa disparou 1,95% e renovou o recorde histórico de fechamento a 165.145 pontos, tendo o cenário eleitoral e o exterior como pano de fundo.
Tanure é um experiente investidor do mercado de valores mobiliários brasileiro, com décadas de atuação profissional. Com mais de 70 anos de idade, ele é conhecido no mundo dos negócios por sua estratégia de adquirir participações em empresas que atravessam momentos de dificuldade financeira ou disputas societárias complexas.
A apuração policial investiga suspeitas de gestão fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro.
Apesar das movimentações na Bolsa de Valores nesta quarta, fontes no mercado financeiro ouvidas pela Folha afirmam que a operação da Polícia Federal não deve trazer grandes mudanças na operação das empresas ligadas a Tanure —ao menos no curto prazo.
O que pode acontecer nos próximos meses, segundo essas fontes, é que o temor de estar envolvido com negócios investigados pela PF afete a captação e a operação dessas empresas. Ainda, se Tanure se desfizer de suas participações, a maior oferta de ações pode reduzir o preço dos papéis.
Não é possível calcular a participação exata de Tanure nessas empresas, já que a exposição do empresário é indireta, via fundos dos quais ele costuma ser o único cotista.
O mercado, de acordo com essas fontes, ainda não precificou totalmente o que pode vir a acontecer com essa nova frente de investigação no longo prazo. Se as companhias perderem Tanure como acionista de referência e não tiverem outro no lugar, o vácuo de liderança pode ser prejudicial ao negócio.
A presença de Tanure na nova etapa da operação ocorre semanas após o MPF (Ministério Público Federal) em São Paulo denunciá-lo por suposto uso de informação privilegiada na negociação de ações da Gafisa, da qual é acionista de referência.
De acordo com o pedido protocolado na 9ª Vara Criminal Federal de São Paulo, Tanure e o empresário Gilberto Benevides praticaram insider trading na operação de aquisição da incorporadora Upcon pela Gafisa, ocorrida entre 2019 e 2020. Eles teriam feito uma série de movimentações financeiras para inflar o valor de mercado da Upcon e, consequentemente, receber mais ações com poder de voto da construtora na operação de compra e venda.
A defesa de Tanure afirma que ele não tem “qualquer relação de natureza societária com o Banco Master, do qual foi cliente nos últimos anos, nas mesmas condições em que é igualmente atendido por outras instituições financeiras conhecidas do mercado”.
Na ocasião da denúncia do MPF, a defesa do empresário também reforçou que ele tem décadas de experiência profissional no mercado de valores mobiliários e jamais havia sido acusado de práticas delitivas nas empresas que é ou foi acionista. O advogado Pablo Naves Testoni disse que Tanure “lastima a açodada denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal e tem certeza de que os fatos serão esclarecidos no bojo do processo”.
Folha Mercado
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A incerteza do mercado também se estende para o futuro da construtora. A investigação turva a possibilidade de Tanure reinvestir na Gafisa —que acumula prejuízo nos últimos anos—, e a recuperação da companhia fica mais remota.
“Se ficar comprovado o envolvimento de Nelson Tanure no escândalo Master, seria muito ruim para as ações das empresas em que, se não controla, é o acionista de referência”, diz o economista Aurélio Valporto, presidente da Abradin (Associação Brasileira de Investidores)
De acordo com o economista, isso poderia minar a credibilidade dessas empresas, afastando acionistas e prejudicando novas captações de recursos via debêntures, ações e até no mercado de crédito bancário.
Ao mesmo tempo, Rafael Panoko, sócio-fundador da US Wealth, não vê influência da operação desta quarta no movimento das ações. “Alliança teve uma correção após subir quase 10% na segunda”, afirma.
A segunda fase da operação Compliance Zero também teve pouco impacto no principal índice da Bolsa de Valores. O recorde renovado do Ibovespa teve como pano de fundo a nova pesquisa Genial/Quaest, que mostrou que a vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno contra Tarcísio de Freitas (Republicanos) caiu.
Tensões geopolíticas e a suspensão da emissão de vistos para os Estados Unidos por parte do governo Donald Trump também nortearam os negócios.
Fonte:UOL