
Ao longo de mais de um século, escolas de samba, cordões e, mais recentemente, blocos de rua acompanharam transformações sociais, políticas e culturais, sem abrir mão de uma identidade própria que faz do Carnaval uma das festas populares mais reconhecidas do mundo.
Especialista em História Social da Cultura e professora da Faculdade Santa Marcelina, Camila Lordy explica que, embora os ritmos tenham se diversificado, os hits carnavalescos mantêm um traço comum: dialogar com o seu tempo. Segundo ela, as marchinhas derivam da cadência das bandas militares e se estruturam em compasso de quatro tempos, dominando as primeiras décadas do século XX com letras bem-humoradas, irônicas e muitas vezes maliciosas, que criticavam costumes, política e a própria sociedade. Esse caráter satírico ajudou a consolidar a música de Carnaval como um espaço privilegiado de comentário social.
A partir da década de 1920, o samba passa a ganhar força no Rio de Janeiro e redefine o Carnaval de rua. Nomes como Noel Rosa e Ary Barroso colaboram para a consolidação do gênero, mas é Ismael Silva — fundador da Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba — quem traduz melhor a necessidade de um novo ritmo para acompanhar os desfiles que cruzavam a cidade. A inovação dos “bambas do Estácio”, com a criação do surdo de marcação e a incorporação da levada de tamborim conhecida como “teleco-teco”, acelera o samba e o aproxima do fluxo intenso da vida urbana em centros como Rio de Janeiro e São Paulo, tornando o desfile mais vibrante e impactante.
A partir dos anos 1970, Salvador ganha protagonismo ao trazer para o centro da festa os blocos afros e afoxés, profundamente inspirados em matrizes africanas. Essas experiências abrem caminho para a explosão do axé nas décadas de 1980 e 1990, com artistas como Luiz Caldas, Banda Mel e Banda Reflexu”s combinando frevo, ijexá, reggae e outros ritmos em canções que rapidamente se tornam hinos de verão. Hoje, grupos como o bloco Ylú Obá de Min e a Charanga do França mantêm viva essa herança em São Paulo, evocando ritmos afro-brasileiros e tradições carnavalescas em cortejos que reforçam a potência da rua como espaço de memória e resistência.
No século XXI, o Carnaval se aproxima ainda mais da música pop e da cultura digital. Funk carioca, pop, sertanejo eletrônico e música eletrônica passaram a dominar parte dos blocos de rua, dos trios elétricos e das festas privadas, espelhando o consumo musical das novas gerações e a força das plataformas de streaming e das redes sociais. Para Camila Lordy, o uso de recursos como o sampler modernizou a linguagem dos hits carnavalescos sem romper com a tradição: artistas incorporam bases, efeitos e referências globais, mas preservam a pulsação rítmica típica da festa popular, mantendo o elo com batuques, percussões e levadas que vêm de décadas — e, em muitos casos, de séculos.
Essa mistura resulta em um Carnaval que é, ao mesmo tempo, festa de rua, indústria cultural e palco de experimentação musical. Os gêneros se cruzam, as fronteiras entre erudito e popular se dissolvem, e a folia se afirma como celebração da diversidade, em que heranças africanas, identidades regionais e tendências globais coexistem sob o mesmo som. Para quem gosta de ver essa fusão ao vivo, o CarnaUOL 2026 é um exemplo concreto de como o Carnaval dialoga com o pop contemporâneo. Marcando a abertura oficial da folia paulistana, o evento chega à sua 11ª edição no dia 24 de janeiro, no Allianz Parque, em São Paulo, com um line-up que reúne Kesha, Pabllo Vittar, João Gomes, Marina Sena, Dilsinho, Dubdogz, Deekapz, Charanga do França e Cores de Aidê. A programação evidencia o encontro entre ritmos globais e brasileiros, reforçando que, das marchinhas ao pop, a essência do Carnaval continua sendo celebrar, misturar e transformar a cultura em festa coletiva.
Fonte:www.glp4.com