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Cultura de posse – 29/07/2025 – Mariliz Pereira Jorge


Para quem não entendeu o que é feminicídio, temos a imagem de uma tentativa. Igor Eduardo Cabral, 29, aparece nas câmeras de segurança de um elevador, em Natal, onde atacou brutalmente a namorada. Foram cerca de 60 socos em 30 segundos que a deixaram com múltiplas fraturas no rosto.

Ele alegou claustrofobia. Não deixa de ser criativa a desculpa para algo que podemos chamar de cultura de posse, o combustível do feminicídio, movido por ódio, controle e desprezo pela vida. É o “me pertences” que ecoa antes do primeiro soco. A ideia de que relacionamentos afetivos vêm com certificado de propriedade e, ao menor sinal de insubmissão, a reação vira sentença de morte.

Não é por acaso que as estatísticas mostram que em mais de 80% dos casos de feminicídio os assassinos eram atuais ou ex-companheiros das vítimas. A jornalista Ana Paula Araújo, autora de “Abuso”, sobre a cultura do estupro no país, acaba de lançar “Agressão”, que retrata a escalada da violência doméstica, com casos que vão além da agressão física, como os abusos psicológico e patrimonial e a chantagem. Em todas as histórias relatadas, a cultura da posse é explícita. Os agressores se sentem donos dos corpos, das relações sociais e profissionais, do dinheiro e da vida das vítimas.

Só faz dez anos que passamos a dimensionar a gravidade dos crimes de gênero, que não entram mais na conta da violência urbana, como um acidente de carro, uma briga de bar, um assalto. Assim, entendemos que o estereótipo do “marido ciumento” não tem nada de romântico; é o tipo que mata quando perde o controle que pensava ser seu por direito.

Não basta publicar leis cada vez mais duras: é urgente reeducar sobre consentimento e respeito. Cobrar prontidão das delegacias, aplicação imediata das medidas protetivas e acolhimento real para quem denuncia. Enquanto essas proteções ainda são frágeis, cabe a todos meter a colher em casos de violência. Desde maio, entrou em vigor no Rio uma lei que incentiva condôminos a notificar o síndico, que passa a ser obrigado a levar denúncias à polícia.

Infelizmente, isso teve que ser feito há duas semanas.


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Fonte:UOL

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