
O mercado audiovisual e os bastidores políticos foram sacudidos com o vazamento de um documento que aponta para a produção cinematográfica internacional. Circula abertamente na internet o que se apresenta como a sétima versão revisada do roteiro de “Dark Horse” (termo em inglês utilizado para designar um candidato inesperado ou ‘azarão’). Assinado pelos cineastas norte-americanos Mark Nowrasteh e Cyrus Nowrasteh e associado à GoUp Entertainment, o texto reconta de forma altamente dramatizada a trajetória de Jair Bolsonaro, com foco central no atentado à faca sofrido por ele em Juiz de Fora (MG), durante a campanha eleitoral de 2018. Por se tratar de um arquivo digital sem anúncios oficiais, o material deve ser tratado estritamente como um suposto roteiro, sem garantias de que o lançamento ou a produção de fato aconteçam.
A estrutura do texto segue a linha de um suspense político e começa mostrando o perfil provocativo do protagonista no circuito da mídia nacional. Em um dos trechos iniciais, durante uma entrevista tensa com uma apresentadora fictícia chamada Natalia, o tom do personagem principal é estabelecido em diálogos secos:
“Você ama sua esposa, seus filhos. Tenho certeza de que reverencia a sagrada família e todos os santos… chora em batizados, casamentos e funerais… mas por baixo disso tudo, o que você é?”, questiona a entrevistadora. A resposta vem em seguida: “Algo que você nunca encontrou. Um homem”. O roteiro ainda destaca a postura do político frente às câmeras: “O que você não suporta e a mídia deste país não consegue engolir é que eu não me importo com o que pensam de mim. Apenas eles. Eu me importo com eles”, diz, apontando para o público.
O clímax da narrativa se apoia fortemente no dia 6 de setembro de 2018. A sequência da facada é descrita com riqueza de detalhes visuais e forte apelo dramático:
“Aurelio puxa a faca de dentro de sua jaqueta, ambas as mãos no cabo, eleva-a acima da cabeça, enterra-a na barriga de Bolsonaro, gasta, como um britador de duas mãos… A faca larga penetra na carne do baixo abdômen”. O libreto continua detalhando o pânico subsequente: “Bolsonaro segura uma careta, ambas as mãos vão instintivamente para a sua barriga… As pessoas não têm certeza do que aconteceu. Então, notamos sangue onde as mãos de Bolsonaro estão em seu abdômen. O rastro de uma pequena flor vermelha desabrocha em sua camisa. A multidão percebe o que aconteceu. As pessoas entram em pânico”.
A partir desse ponto, o suposto filme se transforma em um drama de confinamento hospitalar, jogando luz sobre a união e o desespero dos filhos Carlos, Eduardo e Flávio Bolsonaro. O roteiro reconta o trajeto de carro até a Santa Casa e o medo de que o candidato não resistisse aos ferimentos provocados pela gravidade do corte interno:
“Não fale, Papai. Economize suas forças. O hospital não está longe”, pede Carlos. Em uma descrição minuciosa da ação, os autores escrevem que “Bolsonaro sorri fracamente, toca o queixo de Carlos como se estivesse pedindo desculpas, sem saber que limpa sangue ali. Carlos toca o pulso de seu pai, deita-o suavemente, envolve seus dedos na mão de seu pai. Grudenta de sangue. Ele pode sentir a si mesmo desvanecendo, tosse, então: ‘Eu não quero desmaiar. Se eu desmaiar, eu morro, eu sei disso…'”.
Outra figura que ganha enorme destaque na produção é Michelle Bolsonaro. O roteiro a pinta como a fortaleza da família na tomada de decisões nos bastidores da UTI, batendo de frente com a imprensa e cobrando postura dos filhos. Quando Flávio sugere uma coletiva de imprensa para acalmar os apoiadores, ela reage com firmeza:
“Nós não devemos nada à imprensa. Eles de bom grado relataram a morte dele. E agora? Alguém pediu desculpas? Eles odeiam e eles mentem — eles não ganham nada!”. Mais tarde, a sós com o marido acamado, ela dispara: “Você está estritamente proibido de morrer. Você está me ouvindo?”.
O encerramento de “Dark Horse”, caso o roteiro seja filmado integralmente, promete ser o ponto de maior polarização no mercado cinematográfico. O texto adota uma mistura de imagens de arquivo reais com letreiros na tela que resumem os anos seguintes da história do país de forma direta e sem meandros:
“Em 28 de outubro de 2018, Jair Bolsonaro é eleito Presidente do Brasil”. O texto final prossegue: “O assassino, Aurélio Barba, é considerado ‘inocente’ por um tribunal brasileiro por motivo de insanidade… Uma investigação descobre que o assassino agiu sozinho, mas o inquérito foi incompleto e a investigação ‘deixou de fora muitas questões'”. O desfecho do longa aborda a derrota em 2022 por uma margem estreita e avança de forma polêmica até o cenário recente do ex-presidente: “Bolsonaro é acusado de uma tentativa de golpe em 2025, condenado e recebe uma pena de prisão de 43 anos pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil. FIM”.
Roteiros baseados em figuras políticas vivas costumam passar por severas revisões jurídicas devido ao risco de processos por difamação ou uso indevido de imagem, o que justifica o mistério que ronda o projeto da GoUp Entertainment. Por enquanto, a obra permanece no campo das suposições e serve como um termômetro de como a política brasileira recente é enxergada pelos contadores de histórias do cinema internacional.
Fonte:www.glp4.com