Após construir uma trajetória sólida na TV e no audiovisual, Gui Vieira retorna aos palcos com “O Banquete no Éden”, espetáculo do Grupo Trapo que marca um momento decisivo em sua carreira. Em entrevista exclusiva ao Site GLP4, o ator deixa claro que a volta ao teatro não tem relação com nostalgia, mas com urgência criativa e necessidade artística.
“O teatro é o lugar onde eu me reconheço como ator. A TV me deu visibilidade, experiência, disciplina de set, mas o teatro me dá risco. E eu senti que era hora de voltar para o risco”, afirma. Segundo Gui Vieira, o espetáculo exige uma presença integral, tanto física quanto emocional. “Eu não queria voltar ao teatro por nostalgia. Eu queria voltar por necessidade artística.”
Na montagem, ele interpreta Caim a partir de uma abordagem que evita justificativas morais prontas. “Esse Caim não está interessado em justificar o gesto. Ele expõe a ferida que antecede o gesto”, explica. O processo de construção também foi intenso no aspecto corporal. “Eu precisei acessar um lugar mais instintivo, menos psicológico no sentido tradicional. É um trabalho de pulsão, de tensão muscular, de energia ora contida, ora explosiva.”

A dramaturgia aposta na proximidade com o público e em uma experiência sensorial, o que altera completamente a dinâmica da atuação. Para o ator, essa entrega ao vivo amplia a vulnerabilidade. “Na câmera, você sabe que existe um filtro, a lente, o corte, a montagem. No “Banquete”, não existe proteção. O público está muito próximo, respira com você, sente a vibração do seu corpo.” Ele destaca ainda que cada sessão se transforma a partir dessa troca direta. “Cada sessão é única. O público altera a temperatura da cena.”
Ao mergulhar nas tensões do personagem, Gui Vieira reconhece que houve atravessamentos pessoais, especialmente na sensação de inadequação. “Caim é alguém que sente que nunca ocupa o lugar certo, nem no olhar do pai, nem no olhar dos irmãos, nem no próprio olhar.” Ainda assim, o ator reforça a importância de transformar essas questões em material artístico. “O personagem atravessa, mas não invade.”
A presença no elenco também representa uma reaproximação com o teatro independente. Para ele, trata-se de uma escolha consciente. “O teatro independente exige muito e oferece poucas garantias externas. Você está ali porque acredita na obra, na pesquisa, no coletivo.” Neste momento da carreira, Gui Vieira afirma buscar aprofundamento e investigação de linguagem.
Em temporada às sextas e sábados, “O Banquete no Éden” propõe uma experiência que provoca reflexão. “Eu não acho que o espetáculo entregue respostas. Ele entrega perguntas.” Para o ator, se a peça gerar desconforto e questionamento sobre estruturas e narrativas estabelecidas, já terá cumprido seu papel.
Fonte:www.glp4.com