O que mais me incomoda na xenofobia não é apenas a sua crueldade: é a sua burrice. A sua tacanhice, a sua estupidez. Como muitos, estou alarmada com a onda crescente de preconceito contra os estrangeiros, em vários países.
“Go back to your country”, uma amiga brasileira tem ouvido quando fala português nas ruas da cidade onde mora, nos Estados Unidos. Em Portugal, os colegas de escola do filho de um amigo fizeram um grupo de WhatsApp para praticar cyberbullying contra o menino. A foto de perfil exibe a cabeça do garoto no lixo. Descrição do grupo: “fora, zuca!”, substantivo usado para designar os brasileiros no país.
Muitas pessoas que fazem esse tipo de ataque pensam que são de uma “etnia pura”, como se isso fosse vantagem ou como se isso sequer existisse. Somos todos frutos de migrações e miscigenações, somos todos frutos de uma grande mescla genética.
Mesmo que não tenhamos migrado, alguns dos nossos ancestrais o fizeram. E não o fizeram à toa. Além de amparar o migrante, a chegada de novas pessoas a um território aumenta o potencial de interações frutíferas e impulsiona o crescimento e a inovação.
De acordo com Gaia Vince, em seu livro “O século nômade”, quando aumentamos a população de uma cidade em 100%, seu nível de inovação aumenta 115%. Todas as principais cidades do mundo se originaram de movimentos migratórios, muitas vezes de refugiados, como Roma e Veneza.
E o que dizer da cultura? Uma das principais escritoras brasileiras, Clarice Lispector, não era brasileira. Albert Einstein, que brilhou nos Estados Unidos, nasceu na Alemanha. A famosa cantora portuguesa Severa era filha de ciganos.
Alguns argumentam que têm medo de perder a sua cultura. Será que essa cultura já não está maravilhosamente perdida? Vide a influência latina na música estadunidense, a africana na brasileira ou os melismas árabes no fado.
Nem a língua, que parece representar tão bem a identidade e a cultura de um povo, é limpinha como alguns gostariam que fosse. Pelo contrário: também é maravilhosamente suja, porque lambe o corrimão das ruas, enriquecendo-se, inclusive, com as palavras trazidas pelos imigrantes.
Outro argumento usado contra o imigrante, às vezes pelos próprios imigrantes que já se estabeleceram, vem do bolso, da ideia de proteger o que já se conquistou, raciocínio que ignora a riqueza produzida por quem chega e as desigualdades internas do país, essas, sim, causadoras de problemas econômicos.
O mundo nunca teve tantos muros —estima-se que hoje existam 74 muros no mundo, contra apenas 6 em 1989. Outra obtusidade da xenofobia é acreditar que esses muros terão força para conter o futuro. Com a crise do clima, boa parte dos territórios do planeta se tornará inabitável. O IEP (Instituto para a Economia e Paz) calcula que poderá haver até 1,2 bilhão de migrantes climáticos até 2050.
Ou seja: alguns xenófobos de hoje serão os migrantes do clima de amanhã. Que tipo de fronteiras eles irão encontrar? Que mundo estão construindo com seus votos?
Não será com o medo que escaparemos das crises, mas com aquilo que sempre nos salvou delas: a cooperação. Os desastres climáticos vão provar que, antes de mais nada, somos todos cidadãos de um mesmo lugar: a Terra.
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Fonte:UOL