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O Flamengo amado nunca combinou com política e não cabe na ganância de quem o governa


Demissão de Filipe Luís expõe a fratura entre a alma popular do clube e a cultura de poder que insiste em sequestrar seu protagonismo

A saída de Filipe Luís, além de desestruturar um projeto e abalar mais o clima instável instaurado no Flamengo, deixa um gosto amargo de repetição histórica de um roteiro que já conhecemos. Mais um ciclo encerrado pela ansiedade de quem ocupa cadeira e precisa reafirmar autoridade. Amo o Flamengo no que ele tem de sagrado, no que ele representa para quem aprendeu a sobreviver antes mesmo de sonhar, no que ele desperta quando a bola atravessa a rede e o bairro inteiro explode como se a vida tivesse, por alguns segundos, feito sentido. O que me causa repulsa é a cultura política que se aproveita dessa potência como quem explora um recurso inesgotável, acreditando que o coração popular é patrimônio administrativo.

O Flamengo que eu amo jamais nasceu em conselho deliberativo. Nasceu na rua quente, no morro apertado, no campinho improvisado onde a chuteira furada vale mais que terno alinhado. Ele é feito de gente que canta “uma vez Flamengo” como quem faz promessa para a própria existência. É pacto, identidade, pertencimento que não depende de mandato. E, ainda assim, quem governa insiste em se comportar como protagonista daquilo que jamais criou.

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Filipe LuísReprodução/Adriano Fonte/Flamengo

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Jogadores do Flamengo se despede de Filipe Luís e expõe apoio ao treinadorReprodução/Instagram: @leopereira4

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Equipe comandada por Filipe Luís começa 2026 com dois vice-campeonatos seguidos.Gilvan de Souza/Flamengo

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Corinthians vence o Flamengo por 1 a 0 e conquista a Supercopa do BrasilReprodução/GETV


A história viva tratada como peça substituível

Filipe construiu uma trajetória que uma nota oficial protocolar nunca vai saber expressar com assertividade o tamanho do que foi feito. Como jogador, foi parte central de um dos períodos mais vitoriosos da história recente do clube. Como treinador, em pouco tempo, organizou equipe, empilhou títulos, sustentou desempenho em calendário desumano e lidou com a pressão que só quem treina o Flamengo entende. Oscilações são parte do futebol. Desgaste é consequência lógica de temporadas no limite. O que não é lógico é a condução.

A demissão comunicada de madrugada, com substituição já alinhada, sem um gesto público à altura do que foi entregue, expõe uma forma de agir que diminui a própria instituição. Isso é desrespeitar a própria história. Respeitar o que Filipe já fez e representa, é o mínimo, pois isso já está registrado em taças, números e memória coletiva. Nenhum dirigente atual participou desse mérito esportivo na parte de quem de fato tem de fazer acontecer ao suar sangue diante milhões de fanáticos. Nenhum assinou contrato em campo. Nenhum bateu pênalti sob pressão. Quem decide não é quem constrói.

O poder que se alimenta da obra alheia

O futebol, como a arte, revela quem é indispensável de verdade quando as luzes acendem. O jogador, o treinador, a comissão, o torcedor. São eles que transformam estrutura em espetáculo. A engrenagem administrativa é necessária, mas não é ela que provoca catarse. O problema começa quando passa a acreditar que é.

O Flamengo se tornou potência financeira e institucional. Faturamento robusto, visibilidade global, influência política. Nada disso é desprezível. Mas dinheiro não compra legitimidade moral. E legitimidade moral se constrói com postura.

O episódio do Ninho do Urubu permanece como ferida aberta. Dez adolescentes mortos sob responsabilidade estrutural do clube. Investigações apontaram falhas graves nas instalações. A condução posterior, marcada por disputas judiciais prolongadas e negociações difíceis com famílias, manchou a imagem de uma instituição que deveria ter colocado humanidade acima de cálculo. Ali ficou evidente que existe uma cultura de autopreservação que antecede o cuidado com a própria base que sustenta o discurso de grandeza. Esse tipo de escolha não desaparece com título. E essa ganância inescrupulosa é o que joga no lixo toda beleza que esse clube tem ou já teve, e o torna apenas numa multinacional que cumpre sua obrigação mercadológica a qualquer custo sem pensar nas consequências que isso tem para quem dá alma ao que eles tentam esvaziar. Afinal, o que lucra não é sentimento. É o método que explora esse sentimento.

O risco de corroer a própria essência

Enquanto a bola entrava e a arquibancada virava templo, consolidava-se também um modelo de gestão centralizado, pouco transparente e confortável em decisões abruptas. O sucesso esportivo virou blindagem simbólica. Como se vencer fosse suficiente para silenciar qualquer questionamento sobre métodos. Não é.

O mérito real das conquistas recentes pertence majoritariamente a quem esteve na linha de frente. A quem suportou pressão psicológica, desgaste físico e exposição constante. A quem transformou talento em troféu. A torcida, que lota aeroporto, que canta até na derrota, que transforma jogo comum em rito coletivo, é parte indissociável disso.

Dirigente administra. Não cria identidade. Não constrói idolatria. Não sente o peso existencial que é representar milhões. Quando a cultura política do clube trata figuras como Filipe de forma constrangedora, ela envia uma mensagem perigosa de que ninguém é maior que a caneta. A história passa a ser relativizada pela conveniência do momento. A honra vira detalhe.

O Flamengo é grande demais para ser reduzido a instrumento de vaidade institucional. Sua força vem de baixo para cima. Do morro para o Maracanã. Do subúrbio para o mundo. Se a gestão insiste em plantar arrogância e imediatismo, a colheita pode não ser imediata, mas virá. Impérios esportivos já ruíram antes por acreditarem que a máquina era mais importante que a alma.

Continuo amando o Flamengo que provoca milagre improvável, que faz o bairro parar, que transforma sofrimento em êxtase coletivo. O Flamengo que escolhe seus torcedores pela alma e não pelo cargo que ocupam. O que não aceito é ver essa potência popular ser administrada como se fosse ativo de poder pessoal. O coração do clube não bate em gabinete.



Fonte: Portal Leo Dias

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