Se uma empresa precisa de governança para sobreviver, cada pessoa também deveria se enxergar como a gestora de uma corporação de um único acionista: ela mesma. Epicteto lembrava que “nenhum homem é livre se não for senhor de si mesmo”. No campo financeiro, essa liberdade depende de planejar não apenas os ganhos, mas principalmente os riscos que podem corroer um patrimônio. Curiosamente, alguns dos riscos mais relevantes são praticamente os mesmos para empresas e indivíduos.
O primeiro deles é o risco de descontinuidade do fluxo de caixa. Para uma companhia, a interrupção da operação, seja por um incêndio que paralisa a fábrica ou uma enchente que fecha um restaurante, significa perda imediata de receitas. Se a interrupção for pontual, ela precisa ter liquidez para custear as despesas de curto prazo. Se a interrupção for mais severa pela perda de capacidade produtiva, executivos sabem que existe um instrumento específico para cobrir esse risco, o seguro de lucros cessantes, que recompõe parte desses ganhos.
Já para as pessoas, a interrupção aparece quando há perda da capacidade de gerar renda, seja por desemprego ou invalidez. No primeiro caso, assim como na empresa, o risco pode ser coberto com uma boa reserva de emergência. No segundo caso, o equivalente, é o seguro de invalidez ou a diária por incapacidade temporária (DIT), que protege o fluxo de caixa da ausência de receita do indivíduo.
O segundo risco comum é o da liquidez patrimonial. Muitas empresas têm ativos valiosos, mas de difícil transformação em dinheiro, como galpões e máquinas. Quando precisam pagar fornecedores ou dívidas, podem ser obrigadas a vender ativos com desconto. Por exemplo, recentemente a Raízen teve de vender uma série de ativos para pagar parte de suas dívidas, por falta de liquidez.
O mesmo ocorre com famílias que concentram muito o patrimônio em ativos imobilizados ou de difícil venda. Imagine herdeiros diante de um inventário: para pagar os impostos, muitas vezes são forçados a liquidar rapidamente a propriedade, perdendo valor no processo. Empresas bem geridas cuidam do capital de giro; pessoas bem planejadas mantêm parte do patrimônio em aplicações acessíveis, capazes de enfrentar imprevistos sem comprometer a estrutura.
O terceiro risco é o da longevidade e sustentabilidade. Negócios que não reinvestem em inovação acabam perdendo mercado e fechando as portas antes da hora. O paralelo na vida pessoal é o envelhecimento sem preparo. Vivemos mais, mas isso significa sustentar mais décadas de despesas, geralmente com custos médicos crescentes. Confiar apenas na aposentadoria pública é tão arriscado quanto uma empresa depender de um único cliente para sobreviver. Assim como uma empresa reinveste para se manter competitiva, cada pessoa precisa poupar e investir ao longo da vida para garantir tranquilidade na aposentadoria.
Esses três riscos —descontinuidade do fluxo de caixa, liquidez e longevidade— mostram que a lógica empresarial não difere muito da vida pessoal. Uma companhia que ignora proteção, liquidez e reinvestimento dificilmente dura. Uma família que despreza os mesmos cuidados também se fragiliza.
Mas há uma diferença importante: empresas ainda podem recorrer a aportes de capital dos sócios; já indivíduos não têm essa fonte de recursos, pois cada um é o seu próprio e único sócio. É por isso que olhar para a própria vida com ainda mais cuidado que na administração de uma empresa pode ser a forma mais eficaz de mitigar que os riscos inevitáveis se transformem em tragédias financeiras.
Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.
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Fonte:UOL