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Rodrigo Teixeira: Brasil no Oscar não pode ser ato isolado – 28/01/2026 – Ilustrada


“Parasita” andou para que “O Agente Secreto” pudesse correr. Só que antes, “Cidade de Deus” engatinhou, mas levou um tombo.

O produtor Rodrigo Teixeira, do premiado “Ainda Estou Aqui“, traça uma linha do tempo na qual sustenta que a vitória do longa do sul-coreano de Bong Joon-ho abriu as portas para que o cinema internacional pudesse ganhar mais espaço no Oscar.

“‘Parasita’ é um presente para o cinema internacional”, diz Teixeira à reportagem, na Mostra de Cinema de Tiradentes. “Quando o Bong Joon-ho ganhou o Oscar de melhor filme pelo ‘Parasita’ [em 2020], todos os votantes internacionais se uniram para votar nele. Porque aquilo ia ser bom para todos nós. Ele foi a abertura do mercado internacional entrar entre os dez [indicados a melhor filme]”, afirma.

Para Teixeira, porém, “Cidade de Deus” era para ter sido o pioneiro nessa abertura de portas, mas bateu na trave. “‘Cidade de Deus’ foi prejudicado por uma incompetência da distribuidora internacional [Miramax]”, afirma. “Se tivesse sido indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o que não foi, por um erro da distribuidora, teria vencido.”

O que se conta é que o trabalho de Fernando Meirelles ficou de fora da categoria de melhor filme internacional em 2003 por uma questão de cronograma. Lançado em 2002 no Brasil, o longa só estreou na Europa e nos Estados Unidos no início de 2003, e não teve tração para atrair votos suficientes a tempo das indicações, em fevereiro daquele ano.

Na época, era a Agência Nacional do Cinema, a Ancine, quem decidia o representante do Brasil a ser enviado à Academia. A comissão escolheu “Cidade de Deus” para tentar uma vaga na cerimônia do Oscar daquele ano, que premiou as produções do ano anterior. Na ocasião, porém, o filme foi recusado pela Academia, segundo a jornalista Maria do Rosário Caetano, que participou da escolha.

No ano seguinte, com uma mudança de atitude da Miramax, de Harvey Weinstein, enfim, “Cidade de Deusconseguiu indicações a melhor direção, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia, sem levar nenhuma estatueta. O escolhido da Ancine para tentar uma vaga na ocasião foi “Carandiru”, mas não conseguiu a nomeação.

Durante um painel em Tiradentes, na terça, Teixeira afirmou que, após o sucesso de “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”, não vê grandes chances de um filme brasileiro ser indicado ao Oscar de novo tão cedo.

Independentemente disso, o bom ciclo nas premiações internacionais, na sua visão, traz bons frutos para a indústria. “Ser indicado dois anos seguidos a melhor filme —não filme internacional— é sinal de empoderamento. E isso acho que a gente não perde. Se vai ter continuidade, aí é outra coisa”, afirma. “Agora, o brasileiro tem orgulho do seu cinema, não dá para falar mal dele.”

“Como é que a gente faz para que isso não seja um ato isolado?”, questiona o produtor. “Que esse empoderamento faça com que as políticas públicas melhorem, que talentos tenham mais chance, que a formação de jovens aconteça, que outros cineastas também possam ser reconhecidos”, diz.

“O que você vê hoje, estatisticamente, são cineastas já consagrados, com uma trajetória de 20, 30 anos, recebendo essas indicações e premiações. Mas quando você vê o Adolpho Veloso [fotógrafo brasileiro indicado ao Oscar por “Sonhos de Trem], que é jovem, há uma reciclagem numa categoria técnica”, diz. “Projeto de cinema é que nem futebol, você tem que saber armar o time.”

Mesmo assim, considerando que os caminhos de produção costumam ser demorados, ele pondera que pode haver um hiato pela frente. “No meu radar, não estou vendo um filme ainda com a potência de ‘O Agente Secreto’ e do ‘Ainda Estou Aqui’.”

Isso porque um processo de uma campanha é longo, e não raro passa por outros festivais internacionais antes de chegar a eventos como o Oscar e o Globo de Ouro. Se já houvesse algum título com grande potencial para o ano, é provável que já se soubesse de algum burburinho em torno dele. Foi assim, diz Teixeira, com “O Agente Secreto”, atualmente indicado a quatro categorias pela Academia.

“Eu estava na campanha do Oscar do ‘Ainda Estou Aqui’ em outubro de 2024. A gente já sabia que ‘O Agente Secreto’ [na época, ainda inédito] era bom. Existia um boato de que o roteiro era maravilhoso. Todo mundo que leu o roteiro falava que era brilhante. E ao saber que o Kleber [Mendonça Filho] era o diretor e que o Wagner Moura era o ator principal, as suas expectativas sobem.”

Teixeira lembra ainda da repercussão de “O Agente Secreto” logo quando estreou, em maio do ano passado, no Festival de Cannes, de onde saiu com os prêmios de melhor diretor e melhor ator.

Ele lembra ter sido alertado, na ocasião, por Ryan Werner, que acabava de assumir o cargo de presidente de cinema global na Neon, distribuidora responsável por lançar o filme nos Estados Unidos, e que chamou a atenção por ser a casa dos últimos vencedores do Oscar, dentre eles “Parasita” e “Anora”. E, segundo Teixeira, Werner já previra lá tanto os prêmios no evento francês com a indicação da Academia.

Agora, o produtor acredita que, a partir das indicações de “O Agente Secreto”, o número de brasileiros que votam no prêmio possa passar de 90 pessoas. Hoje, tem cerca de 80 e, há dez anos, quando Teixeira entrou para o clube, eram por volta de 15. A fração ainda pode parecer pequena em relação aos cerca de 10,9 mil membros ao todo, mas já é uma evolução.

E, como reforça Teixeira, a articulação com votantes da América Latina foi fundamental para o Oscar de “Ainda Estou Aqui”, o primeiro do Brasil. “O Oscar é um programa de TV”, diz o produtor. “Você precisa de audiência, e ela não está só nos Estados Unidos, está no mundo inteiro, e o Brasil tem uma das maiores. Esses caras querem audiência, então, hoje o Oscar não é só americano, é patrimônio mundial.”

Os jornalistas viajaram a convite da Universo Produção



Fonte:UOL

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