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Teatro itinerante: ‘Os Mambembes’ une tradição e inovação – 12/06/2025 – Mise-en-scène


A clássica burleta “O Mambembe”, de Artur Azevedo (1855-1908), uma mistura de sátira, opereta e comédia de costumes escrita em 1904, ganha nova vida em uma montagem que une tradição e contemporaneidade. Agora no plural — “Os Mambembes” –, a peça gira em torno de uma questão fundamental: até onde pode ir a dedicação de um grupo de atores para manter viva sua arte. Essa interrogação reflete a própria trajetória da produção, que depois de percorrer praças públicas em nove cidades, consagrou-se no Festival de Curitiba como testemunho da resistência teatral.

O espetáculo dirigido por Emílio de Mello e Gustavo Guenzburger se destaca por sua construção coletiva. O elenco — formado por Cláudia Abreu, Deborah Evelyn, Julia Lemmertz, Leandro Santanna, Orã Figueiredo e Paulo Betti, todos com longa história de trabalhos conjuntos — traz para a cena a cumplicidade de quem já compartilhou muitos palcos. Essa familiaridade permitiu criar uma dinâmica única, onde os papéis circulam entre quatro ou cinco intérpretes durante a peça. Mais do que uma solução prática para o teatro itinerante, esse rodízio se torna linguagem artística, reforçando o caráter lúdico e colaborativo que define o espírito mambembe.

A encenação transforma a saga ficcional da trupe em metáfora do fazer teatral brasileiro. O cenário mutante reflete tanto as limitações quanto a criatividade dos artistas, enquanto a metalinguagem — tratada com humor e poesia — revela os desafios da profissão. A atualização do texto se mostra especialmente na personagem Laudelina, que de figura passiva torna-se uma mulher consciente de seus direitos, incorporando debates contemporâneos sem trair o original.

A música ao vivo de Caio Padilha e cenas marcantes, como a iluminação improvisada com lanternas, evidenciam a sintonia do grupo. A jornada de praças públicas para teatros convencionais mantém o DNA da produção, reforçando seu diálogo entre ficção e realidade.

No final, a trupe de 1904 e a de hoje se fundem, mostrando que o teatro sobrevive por sua capacidade de se reinventar — não como luxo, mas como expressão necessária. O espetáculo prova que, quando artistas unem experiência e amizade, criam uma celebração viva da arte teatral.

Três perguntas para…

… Emílio de Mello

O texto original tem 120 anos, mas fala de coronelismo e censura. Vocês enxergam “Os Mambembes” como um manifesto político sobre a cultura hoje?

Eu não diria que é somente um manifesto contra a censura, mas sim contra vários comportamentos nocivos da nossa sociedade, como machismo, corrupção, violência de gênero e etc. Eu particularmente, enxergo “Os Mambembes” como um manifesto de valorização das artes, sobretudo o teatro.

O elenco é estrelado, mas todos se revezam em papéis secundários. Como foi dirigir atores consagrados em um formato que exige tanta despretensão e entrega coletiva?

Foi muito fácil dirigir esse elenco. Antes de ser um elenco estelar, esses atores são munidos de um enorme talento e amor pelo teatro. Foi o teatro que nos uniu. Eles não estão em cena para fazer um personagem, e sim para contar a história criada por Artur Azevedo. Isso exige uma responsabilidade muito maior e muito mais prazerosa.

Vocês estão buscando patrocínios para novas turnês gratuitas. Quais estratégias estão usando para viabilizar isso? Como o público pode apoiar?

Nossa estratégia é a qualidade do espetáculo e a credibilidade desse elenco. Queremos muito voltar a nos apresentar em praças e viajar pelo Brasil. A vinda do público às praças ou salas de espetáculo é o melhor apoio que podemos ter.

Teatro Casa Grande – avenida Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon, Rio de Janeiro. Qui. a sáb., 20h. Dom., 17h. Até 22/6. Duração: 80 minutos. A partir de R$ 80 (meia-entrada) em eventim.com.br


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Fonte:UOL

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